"Permito que meu teclado, calado, inveje a emoção sobrepujada de dentro de mim por um piano alheio. As mãos suam, as solas dos pés também; estou tensa e nem sei a razão. Não há razão, só a emotividade em atrevimento tirânico, arrancando das entranhas aquilo que só às entranhas deveria pertencer.
Uma ode a alegria deveria ressaltar o esplendor de se viver, mas não! As vísceras revolvidas, expostas pelas surras zombeteiras da existência, latejam, e embora a boca se recuse a queixar-se, crendo ser a vontade do Pai Maior, a alma exausta clama descanso, sedento o espírito da fonte em que só os justos, é dito, ousam se embebedar. A solitude, laureando em pacificação a quem só carece de tranquilidade e mais nada, seria bem vinda!
Por quem clamas, ó coração? Enclausurado nas masmorras do fim de mim, nada ou ninguém deve aí entrar ou daí sair; que aquilo ou aquele que em ti habita esteja roto e mofado, sedimentado e abalroado; e a grilhões estejam atados os espectros dos que já se foram, para que deles eu não me perca, para que não escapem, e que por Deus, de mim não se apartem, inda que ausentados na carne! 
A saudade é curta, pois que as memórias se apagam, são como “coisas perecíveis” que sabemos instintivamente que houveram sem, todavia, subsistirem ao tempo. Se assim o é, por quem choras, ó coração? A quem insiste prestar contas, coração? De quem parte, de onde vem o manancial de energia que te instiga a prosseguir, passo a passo inda que sujeita a um mastro erguido à sua condenação? Por quem suporta tudo isso, ó coração? Pra quê? Por quem?
Será este o significado da alegria? Os que por nossa dor e martírio são escudados, contemplam de suas mortalhas os limiares em que nos dispomos por eles, e então se encantam, sublimados pelo amor devotado que ainda inspiram, embora ciente estejamos que na condição de humanos fadados estiveram a errar?
E se o afã da alegria for tamanho que...Que compense tudo!?! Se ao final haja um recomeço, e o mundo orgânico seja reles ilusão?! Por quem clamará então coração? Quem pensa que estará a aguardá-lo, apaziguando seus ânimos, anestesiando as dores das feridas invisíveis aos que contigo convivem? E se não houver solidão, coração?! E um reencontro afortunado compensar a desarmonia atual?! Valerá a pena?!
Regressada à tenra infância, num universo imaginário e paralelo onde tudo é possível, se aninhará em quem coração?! A qual deles acorrerá primeiro, coração?! Entenderá Beethoven então?! Permitirá que coros de anjos entoem a 9ª sinfonia e silenciem tudo que não poderá ser exposto em meras palavras, coração?!
Apegado à esperança, sinta-os a amá-la desobrigadamente coração, eis que nunca deteve trancas ou chaves; sinta-os a crer que sua fé será o bastante para reconduzi-la, na hora certa, de encontro a eles, e viva um dia de cada vez; os bons e os ruins, coração! Os bons e os ruins, eis que a Ode a Alegria é o hino dos tementes a Deus, dos confiantes da Justiça Divina e na misericórdia do Altíssimo.
Confia naquilo que escreve, coração; quando testada, apega-se às mãos de Cristo; elas guardam das feridas da crucificação apenas o sinal de sua resistência, de seu desprendimento e de sua vitória; uma vitória sobre o mundo, sobre os homens e para os homens.
Qualquer que seja nossa provação, Jesus passou primeiro!

In memorian de Reny Ribeiro Soares e Maria Neves de Matos

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