CAPÍTULO I

       "- Shalom!

       Bendita seja hoje e sempre, alma amiga! Bem aventurados sejam vossos passos e que, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo as bênçãos que mereces te acompanhem. Por menores que forem, precisarás de cada uma delas!

       Tu não me desconheces, tampouco de mim te recordas. Não te incomodes comigo. Venho em paz. Sê paciente e logo me identificarei.

       Sairás em breve do coma induzido que te encontras. Teu espírito, nem atado inteiramente ao corpo, tampouco livre por completo da matéria, vagueou entre os dois mundos; tivestes amparo. Não o meu; apresentar-me enquanto em tal estágio, te comprometeria o restabelecimento.

       Não consegues falar; eu sei. Sinto teus pensamentos e emoções Tua atividade cerebral permanece intensa; bom sinal! Não temas, estás bem cuidado, aconchegado às comodidades consequentes de tua posição.

       Ainda confuso? É natural. Lembro-te de que, há cerca de um mês, sofreste um atentado.

       Tu fostes salvo pelo instinto de uma subalterna, a quem, ao longo do período que te serviu, nada mais procurastes conceder, a não ser um breve cumprimento, pois que, profissional e íntegra, tal mulher jamais recorreu às artimanhas da bajulação e do assédio, que normalmente tanto te alimentam o ego decrépito; portanto, o teu escudo diante a emboscada que pretendia te encerrar os dias, por não te aguçar a libido, nem te fornecer compensações junto aos poderosos com os quais comungas, a teus olhos, talvez, ela nem existia.

       Queres saber se ela sobreviveu? A resposta é não.

       O atirador, alvejado no revide da guarda costas, em grave estado, seguiu também para atendimento, e recuperada temporária consciência, a tudo assumiu, integralmente. Não esboçava contentamento, nem remorso. Lastimou, exclusivamente, a inesperada interferência da agente de segurança, que, no exercício do dever, havia sido atingida junto ao alvo específico, que eras tu.

       Ao único interrogatório, prestado às autoridades policiais no hospital, antes de morrer, teu desafeto confirmou os dados pessoais, e esclareceu as razões da tentativa de homicídio praticada; o homem de trinta e poucos anos, servidor público do Estado, solteiro, sem antecedentes criminais, desabafou na resposta. Foi tocante. Até o delegado baqueou. Dois dias depois teu atirador morreu.

       É...tu abusastes da autoridade que detinhas enquanto no Palácio do Planalto, em Brasília, e posteriormente no Palácio da Liberdade, nas Minas Gerais.Atravancaste a evolução, não colaborando para que ela ocorresse, apadrinhaste o infortúnio com tua alienação, denúncias formais e sindicâncias internas, tu repeliste ao arquivamento. Desconcertaste os justos; patrono dos facínoras, tu mantiveste a corrupção e a iniquidade em desfile pelos labirintos da sede satirizada da terra mater dos inconfidentes.

       De frente ao atirador, dele não te recordaste? E da bela, deslumbrada e pretensiosa jovem, de vinte e poucos anos,que foi encontrada nua, espancada e estrangulada, morta num apart-hotel sofisticado de Belo Horizonte, há alguns anos?Lembras que te deitaste com ela?

       Outros de tua laia também se deitaram, não foi?

       Aquele a quem ressentiste, “a ponto de tentar contra tua vida”, tu o provocaste...O lamento de um menino tornou-se a dor de um homem!

       Lembras-te? Ciente do crime, preocupado com as ranhuras que o inquérito patrocinaria à tua imagem, de tua influência usaste para silenciar a justiça. Tua culpa, tua vera culpa, reside aí!

       Extrapolastes, e receberás as repreendas por acobertares infratores da legislação humana e divina.

       Os veículos de comunicação reconhecidos de teu país, e outros de alcance internacional, divulgaram o teu atentado e a morte do atirador, enfatizando as razões prováveis da atitude drástica e letal. Nos programas televisivos, entrevistas com psiquiatras, sociólogos, economistas e juristas expõem as implicações decorrentes do inusitado episódio para o universo político brasileiro e internacional.

       As investigações do homicídio da moça serão reabertas; o Ministério Público farejou irregularidades possíveis pairando na previdência, quando de sua gestão.Serás considerado supeito, e indiciado!

       Digo que muitos do teu círculo já arquitetam a melhor forma de se afastar de ti. E o verdadeiro mandante do homicídio da jovem, recém-reempossado na câmara, se assustou. Rumou em “férias”, para o exterior. Dele sequer uma visita ou um telefonema, à tua assessoria ou a teus familiares, mereceste!

       Tu pensavas conduzir o sistema; este foi teu erro!

       No jogo de interesses mundanos, tolo, esqueceste? Há sempre um vencedor anônimo! Retiradas as insígnias, tu és, e não passas, de uma pessoa comum!

       Voltavas de um desterro público! Malquisto! E, em regresso, fostes novamente o foco dos holofotes, o motivador de um escândalo! Quantas voltas tua vida deu? Insistes em brincar com o destino?

       A providência divina te manteve vivo por várias razões. Prepara-te!

       Gostas de filmes?

       Os dois seguranças que te resguardam assistem, transmitido na TV do corredor do bloco hospitalar, a uma ficção científica, afamada; se entreolharam, conversando a teu respeito de forma codificada, e riram discretamente...a motivação do escárnio, com brevidade me foi evidente!

       A cena que os aguçou, mostra um político, velho e indefeso, assemelhado a ti, é verdade, sendo atacado por um cavaleiro audaz e severo, de sabre luminoso erguido. Da morte o político escapa graças à interferência de um rapaz.

       Pelo que entendi, o velho dissimulado ganhou com isso um jovem protetor e bem intencionado discípulo...ao final do enredo, suponho, mostrarão o vilão corrompendo o imaturo e impaciente aprendiz, e o usando para atingir os seus propósitos tirânicos!

       A boa notícia é que tua situação veio a calhar;impeditivo absoluto à tua influência corrosiva sobre os jovens "Skywalkers" em ascensão. A vassalagem daquele a quem, aceites ou não, deves a ressurreição de tua carreira, enlameado que estavas por tua má conduta de outrora, tu não terás! Sejam quais forem vossas diferenças, ele honrou com um débito imenso, ao te emprestar o endosso popular que ele, apenas ele, fez por merecer, e tu não!

       Houve um pacto imêmore, mas real; e “ele” o cumpriu.

       Tens teu destino, e ele o dele; e haverá de seguí-lo sem tua intervenção! Não o fadarás à ruína, destinando-o aos escombros, às areias espalhadas pelo vento, sopradas em regresso à boa e velha Babel, como tencionas! Engole a seco teu despeito!

       Há muito em jogo. Ambos estão, ou deveriam estar, a serviço da coletividade!
       Tiveste tua chance, e o que fizeste?

       Que tu percebas as tuas faltas, e enxergues a ascensão dele por digno exemplo, e não por um tormento!

       Por isso vim te amparar, te alertar, te impedir, se possível, de permaneceres em erro!

       Preciso escavar a tua memória, o quanto antes devo reintroduzir em ti o legado de tua própria trajetória. Contar-te-ei o que se sucedeu comigo, para que, advertido, te concentres no significado, acima de tudo, do recomeço que te possibilitam.

       Ouve e te atenta! Conserva em tua alma, em teu espírito e no teu coração as revelações que te farei!"

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       Nada permanece escondido, porém, para tudo que deva ser revelado, há o momento adequado. A essência da criação abraça, em pacífico entendimento dos propósitos superiores, o Criador do cosmo.

       Se assim permitir, com a mente desanuviada, imaculada de pré-julgamentos, estará liberto a confidências de um homem que influenciou o mundo, partilhou dos rumos da história, e de seu engodo, incompreensível à maioria de nós, fez alicerce indestrutível para o trono de glória do cordeiro as Salvação.

       Há poucos anos precisei regressar à densidade terrena esquecida, desagradável tanto quanto um cárcere o é para um ex-condenado.

       Quisera eu descrever os mistérios do universo interplanetário...Não, eu não conseguiria!

       A imensa circunferência azulada, brincando de roda com o astro solar, do espaço se assemelha pacata, divergindo em muito da rotina vivaz, caótica e conflitante com a qual nos deparamos ao ingressarmos nela.

       Verificando a meu derredor espíritos de várias esferas distintas, num zigue-zague itinerante, meu instinto se aguçou.

       Penetrada a atmosfera terrestre, náuseas, causadas pela densidão, me atordoaram momentaneamente. Recuperado o equilíbrio, segui para minha sina: Jerusalém.

       Uma de minhas encarnações causou-me, mais que os inúmeros e pavorosos erros das tantas outras, apupo desconcertante, um mal estar íntimo me consumiu.Meu pretérito havia me ligado a uma figura renomada, extremamente mal quista e mesmo assim, diante as circunstâncias, consegui ser ainda pior que ela!

       Afinal por que eu? Tantos seres dotados de capacidade teriam, certamente com exultação, arcado com o devido jugo! Por que fui eu a desforrá-lo?

       De sorte que, em virtude desse dilema, as entidades superiores de meu setor aconselharam-me uma visitação ao deserto de Judá, a Jerusalém, Belém, às paisagens do mar da Galileia, para que eu ouvisse o que esses cenários tão afortunados teriam a transmitir a meu coração.

       O Supremo Soberano permitia minha presença, e eu vim, estava ali aspirando o ar da pátria do colossal Galileu, o território eleito dos patriarcas de várias, quantas tantas nações, bojo sacro do mais elevado entre os homens, e dos atuantes da mais bela e intrincada saga entre Céu e Terra, pátria mater inclusive do fariseu minúsculo que o traiu.

       Vicejou em mim um saudosismo inexplicável...